Chapéu de palha gera renda para mulheres da Zona Rural

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 É debaixo de uma árvore, na frente de casa, que a agricultora Maria Celina Oliveira, 49, trabalha. Ao lado do lho Lucas, 19, e de uma vizinha, Celina é uma das muitas moradoras do distrito de Ipaguaçu-Mirim, em Massapê, na região Norte do Estado, que mantêm viva a tradição de fazer chapéus de palha de carnaúba; uma arte aprendida, quando ainda era criança, repassada pela mãe, que também aprendeu com os familiares mais antigos.


 


O pequeno distrito, a cerca de 10 quilômetros da sede do Município, sobrevive da renda de benefícios sociais, do funcionalismo público e da agricultura familiar. E, fazer chapéus por aqui, vai além da necessidade de reforçar a renda de casa; na verdade, é um hábito centenário passado de mão em mão.


 


Com habilidade e concentração, Celina vai trançando a palha de carnaúba, numa velocidade impressionante, anal são quase 39 anos de experiência, e de paixão pelo que faz. “Eu comecei ainda muito pequena e nunca mais parei. Lembro que, antigamente, cávamos em grandes grupos de mulheres, homens e crianças, trançando palha nas calçadas de casa, ou nas sombras das árvores.  Mas percebo que hoje, isso mudou, mesmo com pessoas ainda mantendo a tradição, o número de artesãos diminuiu muito”, diz com tristeza, a agricultura que divide o tempo com os afazeres domésticos, a roça e a palha. “Eu tranço chapéus de segunda a sábado, e não falta serviço”, explica ela, acompanhada pelo lho, na mesma tarefa, todos os dias.


 


Lucro


 


Lucas aprendeu aos sete anos a mesma arte da mãe, para ajudar em casa. O jovem, que finalizou o Ensino Médio, está desempregado e vê na feitura de chapéu uma ocupação para espantar a ociosidade e manter algum dinheiro para as necessidades. O rapaz é um dos poucos do lugar a se orgulhar do que faz.


 


“Os jovens de hoje não querem fazer mais chapéus. A internet e outros meios de diversão são mais atraentes, além da vergonha de admitir que essa atividade ainda existe. Ao contrário da maioria, eu gosto do que faço, me divirto com as conversas ao longo do trabalho e ganho meu dinheiro.


 


Enquanto o emprego não chega, o chapéu ocupa meu tempo”, diz. Enquanto isso, dá uma forma arredondada a um emaranhado de os de palha, adquirido nos armazéns locais por cerca de R$ 10 o maço, com 50 palmas. Cada unidade pronta é vendida a R$ 2,40. Dependendo das encomendas, o faturamento semanal chega a uma média de R$ 50.


 


O que é feito pelos artesãos é comprado e encaminhado às fábricas em Sobral. O setor não tem uma entidade especíca que o represente no Município, nem tampouco há um levantamento de quantos, ou quem são os entes empresariais desse mercado, que ainda não possui estimativas de faturamento, ou o peso gerado na economia local pela comercialização desse tipo de produto, tradicionalmente feito no município por empresas familiares. Como ocorre com seu Francisco José Arruda Carneiro, 71, que toca o negócio no ramo de chapéus desde os 17 anos, hoje com essa responsabilidade dividida entre a família, incluido esposa, a filha e o genro.


 


Logo que o material chega, é espalhado para secar ao sol, “o que impede que a umidade prejudique a qualidade da palha, antes que o chapéu ganhe forma”, ensina o empresário, que tem clientes em quase todas as regiões brasileiras O forte da empresa, que atua o ano inteiro, são os chapéus em estilo junino. E é justamente nessa época do ano que a produção chega a dobrar.


 


“O ano de 2017 foi um dos melhores para esse ramo. Nós, por exemplo, chegamos a faturar cerca de 30% a mais na venda de chapéus e, acredito que essa média se mantenha também neste ano, pois recebemos bastante encomendas para as festividades juninas, que são o nosso forte”, explica o empresário, que chega a produzir cerca de 3 mil unidades por dia, fora do período festivo.


 


Cadeia


As peças saem das mãos das chamadas feiteiras, como dona Maria Celina, lá de Ipaguaçu-Mirim, sendo adquiridas por intermediários, que repassam o produto às fábricas, numa cadeia que deve sua existência aos moradores da Zona Rural.


 


“Essa utilização do chapéu de palha veio, certamente, com o trabalho de sol a sol do homem do campo. A palha de carnaúba, além de ser um material leve, ainda refrescava a cabeça dos trabalhadores que lidavam em um setor completamente feito a mão. Mesmo com a tecnologia, que trouxe as máquinas pesadas para a roça, a tradição se firmou, de Norte a Sul do País. A festa junina ajudou a consolidar esse tipo de chapéu como peça cultural importante na vida dura de quem sobrevive da terra”, finaliza seu Francisco José, entre montanhas de peças aguardando para serem finalizadas.


 


Fonte: Diário do Nordeste